Mostrando postagens com marcador Das viagens com pés ou rodas ou telas ou páginas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Das viagens com pés ou rodas ou telas ou páginas. Mostrar todas as postagens

14.2.12

Das viagens com pés ou rodas ou telas ou páginas - Final

Leituras feitas, filmes vistos, viagens realizadas de forma física ou lírica. As leituras foram maiores do que o exposto, assim como os filmes, e também houve mais encontros “externos”, contudo seriam lugares demais, personagens demais e falas demais para lembrar agora, no fim das férias. Porque descubro que no fim essa escrita serve como um adeus a esse período que foi intenso, de recarregamento de energias e todos aqueles clichês. Que são necessários. Há arrependimentos como em qualquer momento. Lamentei o fato de ter perdido tempo com pessoas não tão necessárias assim nesse período de descanso, assim como perdi tempo assistindo a filmes ruins ou lendo obras de pouco valor. Mas as férias não são um apêndice, obviamente constituem a vida. E obviamente assim como nas férias eu tenho perdido muito tempo com filmes pessoas livros e músicas ruins.

Um mal necessário, talvez.

Ou talvez isso possa ser mudado.

Talvez seja minha sina.

De qualquer forma, perder tempo pensando em que se perde tempo é uma forma horrível de gastar... a vida.

E na última “balada” antes que a rotina voltasse com trabalhos e estudos e (por que não?) leituras acadêmicas empurradas (ou não), eu não estava de fato naquele local, mas no ponto oficial de partida das minhas férias: a noite citada na primeira parte desse relato. Não era em uma praia, mas em uma ilha em Xangai. Apresentações circenses à parte, o povo estava bem animado, exceto por uma mulher que vivia a perguntar a todos se achavam ela legal. Acho que era o excesso de bebida, sei lá. Não me importava mais. Com nada. Estava em um local diferente e sabia disso. E não tinha mais volta. Levaria para além das férias.

Quando estava saindo, Typhoid Mary apareceu, sexy como sempre, e perguntou:

“Quer brincar com fogo, docinho?”

É minha sina.

Por que não?

13.2.12

Das viagens com pés ou rodas ou telas ou páginas - PT 2

Após o momento “revisão de valores”, ocorreu a leitura de “Quando Éramos Ófãos”, de Kazuo Ishiguro, uma narrativa sobre um renomado investigador inglês que é obrigado a enfrentar seus demônios de infância ao voltar para uma China em plena Segunda Guerra, enquanto tenta desvendar o desaparecimento de seus pais. Em meio à leitura, uma viagem para cidades próximas apenas como modo de “matar tempo” em meio às férias. Encontrei “47”, personagem do livro homônimo de Walter Mosley, em um restaurante. Ele parecia fascinado com a comida e tudo o que “a espécie humana é capaz de produzir”. E ouve também a leitura de “Santa Maria do Circo”, do mexicano David Toscana, uma alegoria da condição humana. O mote da história se constitui em um grupo de circenses que, sem expectativas, decidem criar uma cidade no meio do deserto e atribuir a cada morador atividades necessárias em uma cidade (tais como prefeito, médico, bancário). O problema é que nenhum tinha a formação requerida. E dessa forma eles constituem uma comunidade. Fantástico perceber a sociedade dessa forma. Muitas vezes estamos perdidos dentro dela, sem saber de fato o que estamos a fazer. Sem saber como conviver. E após a leitura assisti o filme “Violência Gratuita”, uma produção alemã cujo enredo se dá com o jogo violento de dois psicopatas com uma família em uma casa de campo. Tal produção inquieta, deixa o expectador em terror, e faz questionar a forma como banalizamos a violência nos diversos meios de comunicação. Aprendemos a nos acostumar com ela. Aprendemos a ser violentos e a sofrer violências, como se fosse algo extremamente normal. Eles entraram também na minha casa. Foi difícil consertar as coisas por uns tempos.

12.2.12

Das viagens com pés ou rodas ou telas ou páginas - PT. 1

Era o último dia do ano passado e em terra estranha guardava as lembranças de uma noite que possuiu todos os ingredientes para concorrer ao top 10 “momentosmemoráveisdavidaatéagora” e como na apuração pós-desfile carnavalesco, não entrou por alguns décimos. Motivo? Um encontro (leia-se topada) de duração inferior a cinco minutos. Agora por que ficar remoendo aquela casualidade até o fim da festa e início da manhã, nunca se soube. Um pouquinho de obsessão faz bem a todos, brindemos a isso. E foi no mesmo dia meu retorno à terra natal, talvez buscando um certo afastamento das comemorações exageradas que naquele momento me eram um não-lugar. Naturalmente carrego em toda viagem um livro e o que estava comigo naquele momento era “Memórias de Minhas Putas Tristes” do García Marquez. E enquanto ia lendo, mais percebia que um fato inédito e espantoso estava acontecendo: eu podia viajar para aquela história. Não apenas lê-la, mas caminhar por entre aquele enredo, acompanhar de perto o drama daquele senhor que sofria pela velhice e conseqüente impotência sexual ao mesmo tempo em que fazia uma ode à sua juventude. De volta ao lar, última refeição do ano e sem vontade de participar do “momento família” pré-ano novo, assisto a um filme sobre um apocalipse envolvendo zumbis em uma ilha, talvez uma tentativa midiático visando desde os primeiros momentos do novo ano implantar o tal temor de um fim-de-mundo, ou puro acaso mesmo. No primeiro dia do ano costumamos estar mais propensos a reparar as coisas, criar novos começos, desta forma me senti impelido a ler “Como Ser Legal”, de Nick Hornby. Um livro com título de auto-ajuda seria o ideal para um começo de ano, certo? O que acontece é que esse livro é um dos maiores exemplos para a frase “não se deve julgar um livro pela capa”. A narrativa é sobre uma mulher de meia-idade com marido e dois filhos, classe média, e que sempre achou ser uma “pessoa legal” por defender sua família, ter um seleto grupo de amigos e morar em um lugar confortável, até que uma mudança filosófica repentina de seu marido a faz questionar o que representa, de fato, “ser legal” no nosso atual momento. Dessa vez não me transportei até o Reino Unido, não entrei na casa da família, mas podia escutar Kate perguntando para mim “hey, você sabe me dizer se eu sou legal? e você, é uma pessoa legal?”