17.1.17

Amantes

 Nelson e Xanti se amavam.
Dava pra notar, quando eles falavam de suas conquistas:
"Se ela não tivesse cuidado de nosso Pablo, não teríamos um psicanalista de sucesso nos representando mundo afora."
"Trabalha muito esse homem, o mundo é difícil e a gente precisa das nossas coisinhas, Deus me livre ter que pegar ônibus!"
As casas, os carros, os jantares, as roupas.
Cada ano em um lugar diferente, as férias.
As fotos antigas desbotaram. O pão com manteiga derretida da falta de geladeira também.
Restam apenas a Torre Eiffel, a volta de Nelson com seu R8 em Interlagos, a conferência internacional do filho em Dallas, a viagem espiritual de Xanti e suas amigas a Jerusalém.
Dizem que à noite, quando até a luz já se cansou de trabalhar, o casal revira a casa inteira, revista a dedo os arquivos, relembra tudo que lhes é possível, tentando reencontrar o amor, que está ali, eles dizem, apenas perdido em algum canto. "É tanta coisa que tem aqui, né?"

Mas as fotos antigas já foram queimadas.












Imagem disponível em: http://vilamundo.org.br/wp-content/uploads/2013/04/selma-perez-cozinha.jpg











Imagem: The tree of Life - Mark Ryden

15.5.16

Fundo

Carrego dentro de mim um sentido que só é inteligível a partir do seu.

16.4.16

Certas coisas

Certas coisas nos atingem com uma precisão desajeitada, percorrem espaços incógnitos, inundam horas atarefadas, revestem-nos de uma leveza que não aparece nem com o vento.
Certas coisas aparecem e simplesmente são. Certas coisas sem lugar, como eu e você.

22.3.16

Coisas

Muita coisa passa, e muito se perde. Muitas feridas se esquecem, enquanto cortes de navalha são incrustados na pele fingem não existir para proporcionar uma melhor performance. Muita gente cai, muito ouro se perde. Pouco tempo realmente passa voando, mas agoniza tanto que ao fim parece ser acelerado. Todo pensamento pasma quando o dia não chega, todo corpo se mantém sem paz quando a mente não para.
Muito passa, pouco se pensa, tudo se perde.
O que dura?
A companhia que te segue e te faz seguir por todos os caminhos.

14.2.16

Retornar

Retorna às paragens tranquilas
Ao vento solidário
À vida que sossega
Ao barco que não afunda
Transborda

19.12.15

Desconhecer

Alguns tinham medo de não conhecer o mundo, de não saber apontar todas as notícias interessantes, fatos curiosos, rotas alternativas, rodas extensas de amigos de livros de músicas de roupas de amantes. Já para ela, medo maior era ser ignorante de si mesma.

1.7.15

...

Para ele não havia graça em voltar se não fosse para conhecer.