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3.2.11

Nativos - 6 de 6

Naquela casa não existia televisão.
Pelo menos não para o garoto, que conversava com peixes, lutava ferozmente com tritões e tinha uma namoradinha sereia.
Não havia pirata que ousasse invadir o seu mar.
Contudo, tudo perdia a graça quando chegavam os turistas.
Que insistiam em matar sua imaginação.
Pois o barulho dos carros afugentavam todo aquele mundinho só dele.

27.1.11

Nativos - 5 de 6

Todos os dias ele acordava cedo, tomava um copo de leite com pão seco e um pedaço de peixe seco e ia para a praia, levando uma garrafinha de água mineral sempre pela metade. Lá chegando ele acabaria por encher o recipiente com água salgada. Mistura feita, ele tomava. Ao ser perguntado, ele dizia que aquela era a combinação perfeita para um ótimo dia.
Uma “água boa” com uma “água ruim”. Prepararia o corpo e a mente para o resto do dia.
“No fim, é tudo água, não é mesmo?”- ele dizia.

16.1.11

Nativos - 4 de 6

Um boato que circulava pelo vilarejo era de um rapaz que queria virar água.
A obsessão começou aos quatro anos e só piorou desde então.
Os pais nem deixavam o garoto chegar perto da água, podia acabar se afogando, deus me livre.
Já rapaz, nenhuma namorada o agüentava por tratava o mar como fosse gente.
Só fazia amor na praia, ao lado de seu verdadeiro lar. Até tentou o mar, mas nenhuma moça suportou fazer por mais que uma vez.
Aos vinte e poucos, construiu uma jangada, entrou mar adentro e sumiu.
Ninguém encontrou nem o garoto nem a balsa.
Alguns pescadores relatam terem visto por vezes uma jangada vazia flutuando pelo mar, para sumir repentinamente.
Mas a maioria diz que é “conversa de cagão”.

10.1.11

Nativos - 3 de 6

O que mais se conta pela região é sobre o dia em que um peixe gigante seguido de perto por uma centena de peixes igualmente gigantes chegaram à beira da praia. Não parecendo se incomodar com a falta de água, um deles falou:
“Quem aqui é o responsável por vocês?”
Chamaram então o prefeito.
Os peixes reivindicaram melhorias na água, não queriam mais comer esgoto.
Nem serem pescados.
Assustado, o prefeito aceitou tudo.
Enquanto eles iam se afastando mar adentro, ele deu a ordem:
“Peguem eles!”
Foi a maior pesca da história da pequena cidade.
E nada melhor que comer peixes revolucionários.


6.1.11

Nativos - 2 de 6

Era uma moça estranha mas bonita que aparecia no meio da madrugada enquanto os turistas estavam se divertindo nas festas que aconteciam na praia. Dizia que eles estavam “quietinhos demais” e dançava ao redor deles. Quando algum tentava um contato maior, ela se desviava e apenas o ignorava. Algum tempo depois, estava novamente do lado deles, e novamente recusando.
Ninguém entendia qual era o problema da moça.
Alguns diziam ver pelos cantos uma mulher mais velha, que se escondia tão bem que poucos tinham a “sorte” de ver.
Em um dado momento da festa, a moça daria sinais de entrega a um escolhido seu. Iriam para um canto mais reservado, escuro, e lá entraria a mulher mais velha na história, que nocautearia o rapaz e, juntas, as duas mulheres jogavam o corpo desorientado do rapaz em uma canoa e rumavam a uma ilha quase no limite da vista a olhos nus.

3.1.11

Nativos - 1 de 6

Começo uma pequena série de contos intitulada "Nativos". Remetendo a aspectos praianos e muitas vezes imaginários (super, na verdade), é uma forma de manter os pés no mar.

Reza a lenda que numa daquelas prainhas simpáticas-e-aconchegantes-enquanto-você-tivesse-dinheiro existia um barzinho de frente para o mar que abria às dez da manhã e servia arroz carne e feijão. O dono do lugar não servia frutos do mar pois dizia ser um filho perdido dos deuses do mar e a eles devia seu respeito. Mas essa restrição não impedia o uso de quem quisesse, meio às escondidas, de um narguilé com um pouco de erva, pelo contrário. Ele dizia que facilitava o contato com seus semelhantes.